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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mostra John Ford celebra 21 anos do CCBB

John Ford

Cena do filme "Rastros de ódio"



































Rodrigo Martins

No dia em que comemora 21 anos, o CCBB prestará homenagem a um dos maiores ícones do cinema mundial. De 12 de outubro a 7 de novembro, a mostra John Ford apresentará 37 filmes – 36 longas e um curta. A maioria leva a assinatura do diretor e será exibida em película (35mm ou 16mm), exceto Directed by John Ford, documentário dirigido por Peter Bogdanovich, que será exibido em DVD.

Um livro-catálogo com mais de 400 páginas, editado exclusivamente para a mostra, poderá ser adquirido gratuitamente pelo espectador que apresentar cinco ingressos. Para complementar, será oferecido um curso com críticos, pesquisadores e professores. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo e-mail: curso@johnford.com.br.

Segundo o curador Leonardo Levis, "John Ford foi um dos diretores mais influentes de todos os tempos, alguém que ajudou a amadurecer a linguagem clássico-narrativa e o gênero western, e talvez o nome mais importante da Era de Ouro do cinema hollywoodiano. Em um plano mais subjetivo, mas não menos verdadeiro, Ford foi um cineasta de estilo único, um poeta da imagem, dono de enorme apuro visual, que, nos seus filmes, narrou a história americana como nenhum outro."

Com mais de 140 filmes sob sua direção, quatro Oscars de Melhor Diretor e um de Melhor Filme (Como era verde meu vale), Ford consegue estar acima de qualquer rótulo. Orson Welles o definia como o "maior poeta que o cinema já nos deu." A crítica especializada o chama de Homero Americano. Para Levis, o diretor norte-americano detém esta alcunha "porque nenhum outro cineasta contou, com tantos filmes, tantos detalhes e tanto apuro visual a história dos Estados Unidos. Boa parte da obra de Ford é dedicada a esse tema, e, apesar de uma ênfase maior nas Guerras Indígenas, sua obra vai desde a Guerra da Secessão até a era da televisão, passando pela Grande Depressão, pelas duas Grandes Guerras, traçando um caminho único e insubstituível."

Como não há uma fundação Ford, que guarde ou tenha informações sobre seus filmes, os curadores Leonardo Levis e Raphael Mesquita tiveram que pesquisar em cinematecas e arquivos do mundo inteiro, em busca das melhores cópias possíveis. "Foram dezenas e dezenas de emails e ligações, em um trabalho longo e exaustivo, sempre no intuito de não deixar nada de qualidade de fora da mostra. Finalmente, chegamos à lista final, na qual trouxemos filmes de dez acervos diferentes, localizados em sete países", conta Levis.

A mostra será uma oportunidade rara e única de conferir cópias novas e restauradas de grandes clássicos do cinema americano. Será fruto de uma vontade pessoal: a possibilidade de acompanhar, em película e no cinema, a obra de um dos mais lendários e importantes diretores de todos os tempos, mas cujos filmes raramente passam no Brasil. Serão exibidos filmes de todos os períodos e gêneros de Ford, mostrando que sua obra multifacetada possui ainda hoje enorme vigor e beleza.

"Apesar de sua importância, não há disponível nenhuma cópia em película dos filmes de Ford em cinematecas e acervos brasileiros. Isso se torna ainda mais grave quando pensamos que os filmes de Ford ganham muito quando exibidos no cinema, em película, da forma como foram planejados. Fora isso, a mostra não é apenas uma oportunidade de exibir os filmes de Ford a antigos amantes de seu cinema, mas de apresentar a obra desse cineasta seminal a uma nova geração de espectadores", define Levis.

Além das sessões de cinema será oferecido o curso John Ford. Funcionará como um complemento à exibição dos filmes, no qual o estilo e os temas mais caros ao diretor, bem como sua relação com os gêneros e com o cinema de estúdio, serão estudados e relacionados. Dessa forma, o espectador que acompanhar os filmes terá, também, a chance de entender tudo que está contido nele e que define, de forma única, o cinema de Ford.

A ideia partiu dos curadores da mostra, a fim de, juntamente ao livro-catálogo, aprofundar a obra de John Ford para além da simples exibição de seus filmes. Juntamente a cada professor, e levando em conta seus interesses e conhecimentos específicos, foram pensados os temas necessários para que o curso pudesse abarcar todos os assuntos necessários à compreensão da obra de Ford.

Como saiu no Jornal do Commercio esta matéria e a de baixo.
Edição de sexta-feira e fim de semana, 8, 9 e 10 de outubro de 2010.
Caderno Artes, página 5.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Antropofagicamente modernista

Rodrigo Martins

“A proposta do meu trabalho é trazer pessoas como eu, que não tiveram oportunidade, aos centros culturais, aos grandes museus. É fazer uma ponte para que eles possam se interessar por arte”. Este é o sonho de Paulo Santos, artista maranhense, nascido em Santa Luzia e morador do Realengo. Descobriu aos sete anos que possuía dom para o desenho, quando o pai o levou ao cinema pela primeira vez e, a partir deste momento, começou a desenhar as cenas como uma história em quadrinhos.

Sua grande paixão era ser cineasta, aquela experiência abrira sua mente e o fez vislumbrar o mundo das artes. Como todo autodidata, começou a ler, pesquisar e, aos poucos, foi se interando cada vez mais até ganhar uma bolsa de dez anos numa escola de artes. Infelizmente, problemas familiares o impediram de dar continuidade ao que realmente gostava de fazer. Precisou se afastar dos estudos e, por conta própria, começou a explorar este universo.

Iniciou trabalhos com aerografia e serigrafia e conheceu as primeiras técnicas de estêncil com Alex Vallauri. Além destas vertentes, Paulo Santos trabalhava nas áreas de cenografia para cinema, televisão e carnaval, o que o levou a ser chamado pelo Centro Cultural Banco do Brasil para fazer banners e montar algumas exposições. Impulsionado, participou da elaboração de cenografia para o Museu de Artes Modernas, Museu de Belas Artes e diversos centros culturais. Foi sua primeira experiência no cosmo das artes plásticas.

Resolveu pintar, mas não sabia o quê nem como conseguir esta proeza. Ficou dez anos tentando. Bateu em várias portas, mas sempre diziam que sem estudo ele não chegaria a lugar nenhum. Não desistiu. Continuou fazendo seus quadros, na garagem de 12 m², onde consegue se organizar e produzir quadros antropofágicos e surrealistas, misturando um olhar crítico às questões sociais, étnicas, políticas e religiosas, sem esconder um pessimismo quanto ao futuro do País. Em suas telas há sempre olhares perdidos na incerteza em relação aos caminhos que a nação seguirá.

“Minha inspiração surgiu através do ambiente em que eu vivia. Resolvi pintar alguma coisa que vinha de dentro. Não me conformava quando minha mãe chegava em casa reclamando da contribuição que dava à Igreja em troca de uma bênção maior. Este foi o tema do meu primeiro quadro: Mercado Divino”, explica Santos.

Foi chamado, então, por um amigo, André Kuke, para colocar os quadros na sua loja de tatuagem, em Realengo, onde queria estruturar, junto ao que fazia, um café e uma galeria de artes. Certo dia, apreciando as obras, Alê Souto fez o convite inesperado. Chamou Santos para participar da coletiva Vem na mão, no Centro Cultural Justiça Federal, apresentando apenas dois de seus quadros, Profeta Gentileza e Noites de Copacabana. Dos 13 artistas presentes, Paulo Santos foi o que mais fez sucesso.

“A dificuldade do artista gira em torno do preconceito. A arte é para a elite ver. Artista do subúrbio, até mesmo do interior do Brasil, não tem muito espaço. Já vi muitos talentos por aí. Existe uma certa dificuldade para penetrarem nos centros culturais”, nos conta o curador Airton Igreja.

Um ano depois da primeira coletiva, Santos é chamado para sua primeira individual. Com dez obras expostas, o artista nos explica um pouco do seu viés e do apelido que um amigo deu ao seu estilo. “A antropofagia vem do modernismo de artistas consagrados, que quebraram padrões rígidos. Eu costumo digerir imagens conhecidas e regurgitá-las sob um formato bem brasileiro. Quanto ao Pop Arte Tupiniquim, é um apelido em referência ao movimento surgido nos anos 60, que utilizava o deboche à propaganda como forma de expressão. De fato, meus quadros apresentam sempre um tom sarcástico”.

Exposição Paulo Santos
Centro Cultural Justiça Federal
Av. Rio Branco, 241 – Centro
De terça a domingo, das 12h às 19h, até 3 de outubro
Visita orientada com o artista, 9 de setembro às 18h

email do artista: pross_air@hotmail.com

Como saiu no Jornal do Commercio
edição do dia 3 de setembro de 2010, Caderno Artes, página 6



































Obras do artista

Paulo Santos e a obra Madame Satã


Paulo Santos em seu ateliê
























Mercado Divino



















Morro


Vênus brasileira

São Jorge